Casamento homoafetivo: segurança jurídica e amor

Ao contrário do que você deve estar pensando, Nerrian é esposo e Kléber também. É sempre bom deixar claro, porque eles mesmos já passaram por algumas saias justas! O dois se casaram em abril de 2015, mas para chegar lá foi uma longa caminhada, e até hoje têm que tirar umas pedrinhas do caminho.

 

“Ser gay é viver um pouco em gueto. Você tem ambientes fechados e pensados para que as pessoas possam se conhecer. Podem ser ambientes perigosos, como boates, parques à noite ou menos arriscados como casa de amigos, em festas onde só vão gays, lésbicas, por exemplo. Foi numa dessas festas que conheci o Kleber, tínhamos um amigo em comum”, conta Nerrian.

 

Mas ele não se apaixonou perdidamente e foi viver o sonho de amor com o Kleber, não! Nerrian fugia do Kleber! “Eu era meio perdido, estudava Artes Cênicas e pensava em ser um grande ator. Não tinha tempo para pensar em ninguém além de mim mesmo. Ficávamos de vez em quando, quando esse grupo de amigos se encontrava, mas eu dei vários perdidos nele, dava telefone errado…”

 

E, nessas idas e vindas, ele percebeu que aquele relacionamento poderia dar certo e ir além! “Meu medo não era que as coisas dessem errado, mas que dessem certo. Hoje em dia, com o direito dos homoafetivos, pode parecer absurdo pensar assim, só que antes não tínhamos a possibilidade de ficar juntos. Aliás, ficar juntos era pagar o preço muito alto para nada. Ao contrário dos heterossexuais, não tínhamos objetivo de constituir família, não tinha para que fazer esforço”.

 

E quando resolveram se casar?

 

Essa foi uma das partes mais difíceis. Primeiro, o Nerrian, que já estudava Direito e sabia das decisões do Supremo Tribunal Federal de 2011 que possibilitavam o casamento homoafetivo, teve que convencer o Kleber de que era uma boa ideia: “Isso era para os heteros, não para a gente. Foi muito difícil se empoderar mesmo já tendo uma decisão do STF favorável. Kleber sobreviveu à ditadura, foi perseguido por forças militares, a geração dele viveu como pária a vida toda e, de repente, descobre que tem direitos! É difícil se adaptar a essa realidade. De 2011 até 2015 tentei convencer Keber de que poderíamos e deveríamos nos casar. Mas ele só se sentiu a vontade depois de sermos convidados para o casamento de duas amigas nossas. E foi tão lindo, que ele começou a sonhar com isso também”, conta Nerrian.

 

A partir daí era fácil, só cuidar dos preparativos, certo? Claro que não, né!? Sempre tem as pedrinhas no caminho. No cartório foi tranquilo, com o cerimonial, tudo ok. Mas a dona do salão resolveu encrencar: “Depois que fechamos contrato e fomos tendo mais contato, ela descobriu que eu era Nerrian e que eu não era uma mulher. Aí, ela se mostrou homofóbica, achou que a gente não ia pagar, que não era sério. Ficou com medo porque a casa dela era de renome, achava que nosso casamento ia ter gogo boypole dance, essas coisas. Foi um pouco humilhante até ter que dizer para ela que era um casamento como qualquer outro. Inclusive até mais careta, do que a maioria dos casamentos heteros aos quais eu já fui”.

 

Mesmo vencendo todos esses percalços, o casal mantinha autoestima muito baixa. Eles prepararam uma festa para 50 convidados, achando que ninguém ia querer ir ao casamento. Mas para surpresa deles, foram 230 convidados: “As pessoas quiseram ir ao casamento e mostrar seu amor. Nós percebemos que as pessoas que estavam ali de coração aberto, com muito carinho e muito respeito”.

 

Mudanças

 

casamento homoafetivoE o que o casamento mudou na vida dos dois? Certamente muita coisa! “Eu queria segurança da instituição jurídica. Eu queria ter certeza que a família dele não iria me tirar da minha própria casa, caso ele viesse a falecer antes de mim e caso eu morresse antes dele, a mesma coisa. Queria que ele fosse meu herdeiro, meu meeiro. Isso tudo eu fazia questão que acontecesse”, explica Nerrian.

 

E até dentro da família as coisas já começaram a mudar. Nerrian sempre encontrou certa dificuldade em ser aceito pela família de Kleber. Mas durante um tempo, depois do casamento, Kleber ficou internado na UTI. O hospital nunca questionou a presença dele lá, afinal era o esposo. Mas uma cunhada dele sim: “Ela tentou me barrar na entrada, porque ela era família. Aí eu deixei bem claro que o legítimo esposo sou eu e quem tem o direito de estar ali sou eu, ou seja, ela só ficaria se eu quisesse. Foi um choque de realidade e aí as relações começaram a melhorar com a família. Então, houve muitas mudanças no relacionamento com as famílias, com a sociedade, estamos muito mais empoderados”.

 

Agora, o pensamento é no futuro! O casal se mudou para Portugal e a família já começou a crescer: “Hoje somos, Kleber, eu e nossos dois gatos. Num futuro próximo pretendemos adotar filhos também, que vão abrilhantar e enriquecer nossa família, que é como qualquer outra família, sem nenhuma diferença. Ser família é construção diária de relacionamento, de amor, de respeito, de projeto de vida juntos”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *